Introdução
O olho lacrimejando no bebê ou na criança pequena é uma das queixas mais frequentes que recebo no consultório — e também uma das que mais geram dúvida nos pais.
A boa notícia é que, na maioria das vezes, tem uma explicação simples e tratamento eficaz. O ponto de atenção é saber quando aguardar, quando tratar e quando operar.
Por que o olho lacrimeja?
As lágrimas produzidas pelo olho precisam de uma “saída” para não transbordar pelo rosto. Essa saída são as vias lacrimais — um sistema de canais que leva a lágrima do olho até dentro do nariz.
Quando esse caminho está bloqueado ou imaturo, a lágrima não tem para onde ir e começa a acumular no canto interno do olho ou escorrer pelo rosto.
Causa mais comum: obstrução congênita do ducto nasolacrimal
Em recém-nascidos e lactentes, a causa número 1 de lacrimejamento é a obstrução congênita do ducto nasolacrimal.
Acontece porque uma pequena membrana na extremidade do canal lacrimal não se abre completamente no momento do nascimento.
Sinais típicos:
- Lacrimejamento constante em um ou ambos os olhos
- Secreção amarelada ou esbranquiçada no canto do olho, especialmente ao acordar
- Olho “grudado” pela manhã
- Pele ao redor do olho pode ficar irritada
Ponto importante: o bebê não sente dor, a visão geralmente não está comprometida, e o olho não fica vermelho (diferente de uma conjuntivite).
Como tratar?
1. Massagem lacrimal (Manobra de Crigler)
A primeira linha de tratamento é a massagem nas vias lacrimais, realizada pelos próprios pais em casa. Com o dedo indicador limpo, faz-se uma pressão suave e firme sobre o canto interno do olho, de cima para baixo, algumas vezes ao dia. Essa manobra cria pressão hidrostática dentro do saco lacrimal e pode ajudar a abrir a membrana obstruída.
2. Colírios com antibiótico
Indicados apenas quando há infecção associada (secreção purulenta abundante). Não tratam a causa, mas controlam as infecções secundárias.
3. Sondagem das vias lacrimais
Quando a obstrução persiste após os 12 meses de vida, a conduta mais recomendada é a sondagem lacrimal — um procedimento rápido, minimamente invasivo, realizado sob sedação ou anestesia leve. Uma sonda fina percorre o canal lacrimal e abre a membrana que estava bloqueando a passagem. Os resultados são excelentes: sucesso em mais de 90% dos casos quando realizado no momento adequado.
4. Cirurgia (DCR ou Endo-DCR)
Reservada para casos mais complexos, obstruções recorrentes ou crianças maiores que não responderam aos tratamentos anteriores.
Outras causas de lacrimejamento em crianças
Nem todo lacrimejamento vem de obstrução lacrimal. Outras causas que precisam ser investigadas:
- Conjuntivite (viral ou bacteriana) — olho vermelho, com secreção
- Alergia ocular — coceira, olho avermelhado, histórico familiar de alergia
- Corpo estranho — lacrimejamento súbito, criança esfregando o olho com insistência
- Glaucoma congênito — causa rara mas grave; o olho fica grande, com córnea turva e fotofobia (sensibilidade à luz). Exige avaliação urgente.
- Ectrópio ou entrópio palpebral — alteração na posição das pálpebras
Quando levar ao oftalmologista?
Procure avaliação especializada se seu filho apresentar:
- Lacrimejamento persistente por mais de 2 a 4 semanas
- Secreção purulenta frequente ou que não responde ao colírio
- Inchaço ou vermelhidão na região do canto interno do olho (pode indicar dacriocistite)
- Olho de tamanho maior que o normal ou com aparência turva
- Fotofobia (criança foge da luz)
- Lacrimejamento em apenas um olho sem causa aparente
Conclusão
O lacrimejamento na infância quase sempre tem solução — e quando tratado no momento certo, evita complicações e procedimentos mais complexos.
Dr. Giancarlo Simionatto — Médico Oftalmologista especializado em Vias Lacrimais e Oculoplástica CRM-SC: 8710 | RQE: 6776