A tireoide é uma glândula conhecida por regular o metabolismo, mas poucas pessoas sabem que ela também pode afetar os olhos. Em alguns pacientes, o sistema imunológico passa a atacar os tecidos localizados dentro da órbita — a cavidade óssea que abriga os olhos — provocando uma condição chamada Doença Ocular da Tireoide (DOT), também conhecida como Orbitopatia de Graves ou Oftalmopatia de Graves.
Essa doença pode causar desconforto, alterações estéticas, visão dupla e, em situações mais graves, colocar a visão em risco. Felizmente, quando diagnosticada precocemente, existem tratamentos capazes de controlar a inflamação e reduzir significativamente as complicações.
Neste artigo, você entenderá como a doença se desenvolve, quais são seus sintomas, quando procurar um oftalmologista e quais são as opções de tratamento atualmente disponíveis.
O que é a Doença Ocular da Tireoide?
A Doença Ocular da Tireoide é uma doença autoimune. Isso significa que o próprio sistema imunológico passa a atacar estruturas saudáveis do organismo.
Na órbita, esse processo inflamatório acomete principalmente:
- músculos responsáveis pelos movimentos dos olhos;
- gordura orbitária;
- tecido conjuntivo ao redor do globo ocular;
- pálpebras.
Como consequência, ocorre aumento do volume desses tecidos, fazendo com que os olhos pareçam mais projetados para frente (proptose ou exoftalmia), além de causar retração das pálpebras, edema e alterações da movimentação ocular.
Embora esteja fortemente associada à doença de Graves, a Doença Ocular da Tireoide também pode ocorrer em pessoas com hipotireoidismo e, mais raramente, em indivíduos com exames hormonais da tireoide normais.
Quem pode desenvolver a doença?
A doença é mais frequente em adultos entre 30 e 60 anos e acomete mulheres com maior frequência. Entretanto, os casos mais graves costumam ocorrer em homens, especialmente após os 50 anos.
Alguns fatores aumentam significativamente o risco de desenvolver a doença ou de apresentar formas mais graves:
- tabagismo (o principal fator de risco modificável);
- doença de Graves;
- níveis elevados de anticorpos contra a tireoide;
- tratamento com iodo radioativo em pacientes não protegidos adequadamente;
- diabetes;
- colesterol elevado;
- histórico familiar de doenças autoimunes.
Entre todos esses fatores, parar de fumar é uma das medidas mais importantes para melhorar o prognóstico da doença.
Quais são os principais sintomas?
Os sintomas variam conforme a intensidade da inflamação e a fase da doença.
Sintomas iniciais
Nos primeiros meses, muitos pacientes apresentam sintomas semelhantes aos do olho seco:
- sensação de areia nos olhos;
- ardor;
- vermelhidão;
- lacrimejamento;
- sensibilidade à luz;
- desconforto ao vento ou ao ar-condicionado.
Esses sintomas podem preceder alterações mais evidentes.
Alterações das pálpebras
Com a evolução da doença, podem surgir:
- retração das pálpebras;
- dificuldade para fechar completamente os olhos;
- inchaço das pálpebras;
- aspecto de olhar assustado ou muito aberto.
Além do impacto estético, essas alterações aumentam a exposição da córnea e favorecem o ressecamento ocular.
Alterações da órbita
A inflamação dentro da órbita pode provocar:
- olhos mais saltados;
- sensação de pressão atrás dos olhos;
- dor, principalmente ao movimentá-los;
- dificuldade para movimentar o olhar;
- visão dupla (diplopia).
Esses sintomas podem interferir significativamente na qualidade de vida.
Quando a doença pode colocar a visão em risco?
Embora seja incomum, existem duas complicações que exigem atendimento imediato:
Neuropatia óptica compressiva
O aumento dos músculos dentro da órbita pode comprimir o nervo óptico, causando:
- redução da visão;
- diminuição da percepção das cores;
- perda de campo visual.
Sem tratamento, essa condição pode levar à perda permanente da visão.
Úlcera de córnea
Quando as pálpebras deixam de proteger adequadamente os olhos, a córnea pode sofrer lesões importantes, aumentando o risco de infecções e cicatrizes.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é realizado pelo oftalmologista por meio de uma avaliação detalhada.
O exame inclui:
- avaliação da acuidade visual;
- exame das pálpebras;
- medida da protrusão ocular (exoftalmometria);
- avaliação da movimentação dos olhos;
- análise da superfície ocular;
- exame do nervo óptico.
Dependendo do caso, também podem ser solicitados:
- tomografia computadorizada das órbitas;
- ressonância magnética;
- exames laboratoriais relacionados à função da tireoide e aos anticorpos específicos.
O acompanhamento conjunto com o endocrinologista é fundamental para o controle da doença sistêmica.
A doença possui fases?
Sim. Esse é um dos conceitos mais importantes para compreender o tratamento.
Fase ativa
É o período em que predomina a inflamação.
Os sintomas costumam piorar ao longo de meses e podem incluir:
- vermelhidão;
- edema;
- dor;
- progressão da proptose;
- aparecimento de visão dupla.
Nessa fase, o objetivo do tratamento é controlar a atividade inflamatória e evitar sequelas.
Fase inativa
Após um período variável, a inflamação diminui e a doença entra em uma fase de estabilidade.
Nessa etapa, permanecem apenas as alterações estruturais deixadas pela inflamação, como:
- retração palpebral;
- proptose residual;
- estrabismo;
- alterações estéticas.
É nesse momento que as cirurgias corretivas costumam ser indicadas.
Como é o tratamento?
O tratamento depende da gravidade e da fase da doença.
Casos leves
Na maioria dos pacientes são indicados:
- lágrimas artificiais;
- pomadas lubrificantes noturnas;
- proteção da superfície ocular;
- interrupção do tabagismo;
- controle adequado da função da tireoide.
Em algumas situações, a suplementação com selênio pode ser considerada, especialmente em regiões com baixa ingestão desse mineral.
Casos moderados ou graves
Quando há inflamação importante, podem ser necessários:
- corticoides intravenosos;
- medicamentos imunomoduladores;
- radioterapia orbitária em casos selecionados;
- terapias biológicas específicas.
Nos últimos anos, o tratamento da Doença Ocular da Tireoide evoluiu significativamente com o desenvolvimento de medicamentos capazes de atuar diretamente nos mecanismos da inflamação. Alguns desses imunobiológicos têm demonstrado resultados promissores na redução da proptose e da atividade da doença.
Quando a cirurgia é indicada?
Nem todos os pacientes necessitam de cirurgia.
Quando indicada, geralmente segue uma sequência bem estabelecida:
1. Descompressão orbitária
Indicada para reduzir a pressão dentro da órbita ou diminuir a proptose.
2. Cirurgia do estrabismo
Realizada quando permanece visão dupla após a estabilização da doença.
3. Cirurgia das pálpebras
Corrige retrações, melhora o fechamento dos olhos e proporciona melhor resultado estético.
Essa sequência é importante porque cada etapa pode modificar a posição dos olhos e das pálpebras.
É possível prevenir a doença?
Nem sempre.
Entretanto, algumas medidas reduzem significativamente o risco de evolução para formas graves:
- não fumar;
- manter acompanhamento regular com o endocrinologista;
- controlar adequadamente a função da tireoide;
- procurar um oftalmologista ao surgirem sintomas oculares.
Perguntas frequentes
Todo paciente com hipertireoidismo terá problemas nos olhos?
Não. Apenas uma parcela dos pacientes desenvolverá Doença Ocular da Tireoide, e a intensidade varia bastante entre eles.
O hipotireoidismo também pode causar a doença?
Sim. Embora seja menos comum, pacientes com hipotireoidismo ou mesmo com função tireoidiana normal podem apresentar a doença.
A doença tem cura?
A atividade inflamatória costuma diminuir com o tempo, mas algumas alterações estruturais podem permanecer e exigir tratamento cirúrgico.
A cirurgia melhora a aparência?
Na maioria dos casos, sim. Além do benefício estético, ela pode melhorar o conforto ocular, o fechamento das pálpebras e, em alguns pacientes, a visão dupla.
Parar de fumar realmente faz diferença?
Sim. O tabagismo é um dos fatores que mais aumentam a gravidade da Doença Ocular da Tireoide e reduz a resposta aos tratamentos.
Conclusão
A Doença Ocular da Tireoide é uma condição complexa, mas que pode ser tratada com excelentes resultados quando reconhecida precocemente.
Alterações como olhos mais saltados, retração das pálpebras, visão dupla, vermelhidão persistente ou sensação constante de irritação não devem ser consideradas “normais”. Esses sinais merecem avaliação por um oftalmologista com experiência em doenças da órbita.
O tratamento individualizado, aliado ao acompanhamento do endocrinologista, permite controlar a inflamação, preservar a visão e, quando necessário, corrigir as alterações funcionais e estéticas por meio de cirurgia.
Quanto mais cedo a doença for diagnosticada, maiores são as chances de preservar a saúde ocular e obter os melhores resultados.